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QUANDO A FOME BATE A PORTA

Segunda feira, 13 de Dezembro de 2010
QUANDO A FOME BATE A PORTA

(de Jacobina – Bahia) Eu acabei de receber um e-mail onde um vídeo premiado documentário do cineasta amador Ferdinand Dimadura, provavelmente de origem alemã (o vídeo), que mostra a febre do consumismo desenfreado em algum país asiático e um final no mínimo curioso.

 

O vídeo inicia com a preparação de alimentos em um restaurante, mostra a movimentação dos funcionários e cozinheiros para prepararem boas doses de carnes e guarnições que posteriormente são consumidos de forma errônea e irresponsável pelos abastados clientes. Os clientes enchem os pratos de todo tipo de guloseima e quitute e acabam comendo cerca de 50% do que lhes são oferecidos.

 

Na parte que antecede o final do filme são mostradas cenas do envio dos restos de tudo que é recolhido nas mesas durante o expediente para o lixo; primeiro eles recolhem os restos dos pratos e depositam tudo num latão de lixo; depois levam estes latões cheios de carnes, macarrão e outras iguarias devidamente misturadas para uma ala longe dos olhos de seus clientes.

 

Num ato seqüencial, chega um moço jovem com um sorriso amarelo na face, que começa a recolher tudo que supostamente lhe interessa e deposita o material recolhido num saco plástico, seguido de acondicionamento numa outra lata que está devidamente presa a sua bicicleta. Tudo isso ocorre durante a madrugada, pois se percebe a falta de luz do sol e presumindo ser após o expediente do jantar.

 

A cena seguinte mostra aquele moço jovem chegando pela manhã numa favela; mostram-se cães vasculhando um lixão imundo e a impressão que se passa é que aquele jovem está levando a comida para seus bichos domésticos; mais adiante se revela uma multidão de crianças que cercam o jovem ciclista o ajudando a subir uma ladeira pouco íngreme.

 

A cena seguinte é de cortar o coração, as crianças abrem aquela lata de lixo cheio dos restos dos restaurantes em que o homem passou para recolher os restos e como se fosse o néctar dos deuses, algo do tipo piquenique prosaico. O homem ainda sorrindo deixa as crianças se lambuzarem com todo aquele lixo que ele trouxe e as cenas seguintes são deprimentes; as crianças disputam tudo que podem e pelo visto, aquele lixo será seus alimentos matinais, os únicos disponíveis para aquele dia.

 

Na cena final, o homem do lixo, da bicicleta, aquele benemérito das crianças da favela, aparece reunido em volta da mesa de almoço de sua casa, junto com toda sua família, se preparando para almoçar o resto do resto daquele lixo que fora disputado pelas crianças pela manhã, mas antes, uma oração para AGREDECER A DEUS PELO ALIMENTO DA MESA...

 

Será que ainda há o que comentar?

 

Hoje ao meio dia eu almocei num hotel onde estou hospedado por motivos profissionais; como eu teria que estar numa reunião às 15 horas; cheguei de uma prefeitura por volta das 11 horas e já solicitei na recepção que me fizessem um prato a base de frango para o almoço. Até esta hora eu não havia recebido aquele e-mail; sem imaginar o que veria ao abrir minha caixa de mensagem, fui até a cozinha, como de costume, ter mais contato com o pessoal do lugar; confesso que quase os refreei verbalmente por estarem fazendo algo tão simples; pedaços de peito de frango cozido em ervas, cebola e azeite de oliva com arroz branco; mas como se fosse um presságio do que eu leria em seguida, calei-me e pus-me num silêncio profundo.

 

Com certeza muita coisa do almoço do hotel, hoje foi ao lixo; dias passados também teria ocorrido o mesmo e não será difícil ocorrer no futuro, mas depois que assisti a este vídeo, me veio uma angústia dramática que entranhou na parte mais profunda de meu caráter. Eu estou errado quando penso em reclamar do alimento que me é servido; eu estou errado quando desperdiço qualquer coisa e mais errado ainda porque tenho todas as condições de ajudar mais as pessoas e não o faço, seja por medo, vergonha ou simplesmente ignorância.

 

Meu egoísmo e minha falta de sensibilidade com aqueles que estão provavelmente tão pertos de mim é o que provavelmente me deixa cada vez mais deprimido quando tenho raios de lucidez. Escrever não basta; alertar não adianta; apontar os erros não é suficiente; agir em prol do coletivo, que é o mais simples, não me chega por coragem e isso me deixa ainda mais sorumbático.

 

As pessoas estão morrendo de fome nas ruas, nos campos desérticos, nas escolas, enfim, o mundo carece de alimento e eu ajudo para que isso se transforme numa catástrofe a partir do momento que consumo coisas que destroem a natureza, a partir do momento que penso somente em minha fome ou nos meus luxos.

 

Saber que você, que está lendo este texto agora pode se enquadrar ainda mais numa condição de normalidade e ajudar sem saber, ou sem querer, aqueles que necessitam de uma simples ajuda é o que me faz esperançoso; é o que me deixa com um pouco mais de energia para agir e mudar tudo isso. Sei perfeitamente que sou um simples beija-flor que carrega uma gota de água no pequeno bico para tentar apagar o incêndio da floresta, mas me orgulho, pelo menos um pouco, de saber que nestes raros momentos, como agora, eu consigo enxergar a desgraça e a miséria que provavelmente eu ajudei a construir.

 

Da mesma forma que aquelas crianças e aquela família dependem do lixo dos restaurantes, lá num país qualquer da Ásia, aqui no Brasil tem gente igual ou ainda pior; gente que não tem o que comer no Nordeste; vizinhos que vivem numa linha, baixo do que chamamos de miséria ou as pessoas que as vezes nos servem com seus préstimos profissionais, como o lavador de carro, o flanelinha ou o catador de papéis e que sequer desejamos saber o que eles comerão em casa naquela noite.

 

Eu preciso me inteirar mais dos temas do meu mundo, afinal de contas; a história diz que somos da mesma raça, a raça humana, mas às vezes eu duvido! Somos egoístas, prepotentes, intolerantes, impacientes, nevrálgicos e até desonestos. Pensamos sempre na primeira pessoa do singular, como se fôssemos únicos, exclusivos e imprescindíveis para o mundo. Seria muito bom se todos vissem o vídeo e o encarássemos como uma triste realidade que está mais próxima do que se possa imaginar. Quem tiver a devida coragem de se enxergar em um dos personagens do filme, que acessem a página:

 

http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte

 

Se quiserem mandar comentários, fique a vontade; se quiserem divulgar o fruto de meu desabafo, façam como quiser e se quiserem montar um exército de anônimos preocupados com a fome da humanidade, contem comigo...

 

O natal cristão está aí, batendo a nossa porta. Nesta data comercial os pais se preocupam com os melhores brinquedos para seus filhos e os presentes para o restante da família e eu não fujo a regra. Minha filha já escolheu se presente e provavelmente eu e a mãe dela faremos um esforço para comprá-lo. Na noite de natal, provavelmente estaremos numa casa confortável, sentados a mesa com alguns quitutes e bebendo algum vinho, mas antes, como sempre faço, eu e minha filha passaremos em vários lugares que não se costuma fazer o mesmo que nós, para fazermos juntos, a nossa parte e para que ela veja “in loco” que muitas pessoas necessitam de um lixo tão comum e raramente encontram. Talvez minha filha cresça com uma visão menos poética da vida e se torne um instrumento de auxílio aos menos amparados.

 

A maior vergonha que sinto é do planejamento sem ação. Muitas pessoas planejam tanto e não agem como o planejado; traduzindo: cachorro que late muito não morde! Pesquisadores afirmam que 1 bilhão de pessoas passam fome hoje e para os que não sabem o que isso significa, 1 bilhão de pessoas é o mesmo que 5 vezes a população do Brasil!

 

 

CARLOS HENRIQUE MASCARENHAS PIRES

www.irregular.com.br

 

 



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