Vídeo em Destaque

+ Mais videos

Enquete

LULA SERÁ PRESO?
Crônicas do Imperador
na Rede

ONTEM EU MORRI...

Terça feira, 29 de Julho de 2014
ONTEM EU MORRI...

Ontem foi meu último dia de vida! Eu acordei tarde e me senti muito bem. Levantei da cama por volta das 10 da manhã; e como de praxe, tomei banho e já saí para trabalhar; e isso, sem me dar conta que estava bastante atrasado para os primeiros compromissos matinais. Atendi algumas pessoas e depois que fui almoçar, voltei ao escritório e fui embora pra casa. Eu precisava cumprir meu último compromisso do dia, que na verdade, só correu a noite.

Vesti meu paletó negro e rumei para completar meu último compromisso ainda vivo. Entrei naquela sala estranha, e das poucas pessoas que enxerguei, a maioria eram desconhecidas. Fiz o que tinha que fazer e lá estava eu mortinho da silva. Um grupo de pessoas havia matado o “eu” que habitava meu corpo há décadas. Uma morte programada; um falecimento como muitos que ocorrem todos os dias; e o velho “eu”, sucumbia a verdade dos fatos; passava desta para melhor!

Antes de ontem, meu dia foi tenso; cheio de enigmas pragmáticos que precisei resolver ao longo do dia. Muitas ligações, algumas visitas; e o dia não rendeu como deveria, mas transcorreu tão normalmente como em todos os outros dias anteriores, pois sempre precisei matar um elefante por dia; e muitas vezes, tive que me alimentar de lebres.

Preciso tentar lembrar do dia de meu nascimento. Uma primavera quente, típica dos Sertões; e lá estava minha mãe parindo aquele menino; o seu primeiro garoto. Não posso dizer ou afirmar que fui tão bem amado ou mal amado; o fato é que logo, quando eu despertei para a vida, meus pais fizeram uma viagem rumo ao desconhecido; eles resolveram apartar o amor e seguiram sozinhos, um para cada lado; e eu tive que, praticamente, escolher com quem seguir andar; e confesso que a decisão não foi a mais sensata, mas o remédio, para a época, me fez seguir aquele que reunia melhor condição.

Passei anos a fio entre a escola, que aliás, posso testemunhar meu protesto de agradecimento, pois frequentei boas escolas; tive bons professores e excelentes colegas no corpo discente de cada instituição que passei...

Minhas viagens começaram numa boleia de caminhão. Eu via o mundo passando pela janela e cada quadro que minha cabeça pintava, vendo tudo aquilo que passava, me inspirava a conhecer cada palmo adiante do que meus olhos podiam enxergar. Desde cedo eu ganhei o mundo e comecei fazendo isso com meu pai, um aventureiro obrigatório. De minha mãe, tive acesso à leitura e a interpretação dos textos; e desta miscelânea, aprendi que viver é bom, mas viajar é muito melhor; e minha morte, ocorrida ontem, me proporcionou uma outra viagem...

Aqui onde me encontro, tenho acesso a vultos históricos e fatos reluzentes. A morte de minha alma no patíbulo, não foi tão dolorida o quanto imaginei. Na verdade, se fosse para escolher, eu jamais quereria morrer, afinal de contas, a vida é muito boa; e aqui onde estou, não há Alcorão, Bíblia ou Torá; não há Facebook, computador ou celular; mas eu não tenho do que reclamar, pois diversão também se pode traduzir em experiências novas.

Tenho que lembrar o ano 3345, ano de minha concepção espiritual nas sendas emblemáticas da Antiga Escola de Mistérios do Egito. Pensei eu, à época, que eu também deveria morrer. Na verdade, eu queria ter seguido as lendas, entrado num sarcófago e extraído cada resposta para todas as perguntas que atordoavam minha vida. No dia um do mês três; um pouco antes do sol, em sua trajetória pelo zodíaco, cruzasse a Linha do Equador Terrestre, e assinalasse o equinócio de outono no hemisfério sul, e o equinócio da primavera no hemisfério norte; e marca a saída do signo de Peixes, o último do Zodíaco, para o de Áries, o primeiro; eu estava ingressando num mundo novo; em um ano novo!

Aquele ano, em 3345; lá estava eu, quase um menino, sem nada conhecer e sem nada perceber; procurando um momento de harmonia com a natureza; tentando dar um fim ao Inverno no Norte e ao Verão no Sul. É como se fosse um réveillon astrológico, ideal para começar uma nova fase com o pé direito, querendo tomar deliberações para o período seguinte, e em singular cerimônia, assumi o compromisso de manter os elevados ideais, bem como o de servir altruisticamente à humanidade. Uma decisão que marcaria para sempre minha vida, mas que não me fez morrer, como morri ontem!

Esta coisa de morrer até que não é ruim! A gente nasce, cresce e sabe que um dia vai morrer mesmo. Muitos de nós nem nascem; outros morrem criança; muitos morrem na fase adulta produtiva; e alguns outros, após terem cumprido todas as etapas, morrem velhos e esquecidos; e no máximo, em todos os casos, fica uma lápide com a inscrição de seu nome, que durará no máximo 10 anos; e depois tudo se apaga. Foi-se a carne e também as lembranças. Saudades se encerram; e novas gerações, cheias de vigor, preenchem as lacunas do “lembrar eterno”; mas o que jamais pode morrer na vida de todos os homens, são seus feitios de enobrecimento humano; suas atitudes ímpares que contribuíram com a evolução de uma única raça. A raça humana!

Outro dia, não faz muito tempo, saí de Brasília e voltava pra casa de carro, fato raro, pois sempre fui ao Distrito Federal de avião, mas naquela semana, eu queria ir de carro; e na volta, num piscar de olhos, notei vindo em minha direção outro carro, que do nada, colidiu-se contra o meu; e me fez rodar feito pião, parando ileso no acostamento de um posto. Pela porrada exacerbada, não era para eu ter ficado vivo, mas graças a Deus, saí ileso para contar a história e ainda pedir auxílio para o outro motorista, muito ferido. Meu dia de morrer não era aquele; nem foi o dia do rapaz.

Há muito tempo atrás, quando eu veraneava numa praia exótica do Nordeste, encontrei uma alemã muito simpática que me convidou para nadar com ela numa praia deserta; e eu fui. Mas como nadar, se eu nem sabia boiar? Era o fascínio de menino pelo desconhecido; e também pelas canduras de uma mulher formosa!

Quando aquela alemã tirou toda a roupa e se atirou na água, na verdade eu vi uma seria de pele branquinha e um belo par de olhos azuis me chamando e repetindo: “Kommen sie schwimmen mit mir, meine Liebe! ” Seria uma Iara encantada me chamando para o prazer? Não! Era a morte se anunciando! Eu entrei na água e quando me dei conta, estava afogando! Eu vi um filme passando naqueles poucos segundos. Vi minha família, meus amigos se despedindo; e num raro momento, num fragmento de um instante, vi também meu corpo prostrado num féretro negro; e uma coroa de flores onde estava inscrito: Vai com Deus, garoto bobo que não fez nada na vida!

A vida de todos é feita de altos, baixos e médios. Na verdade, ninguém se lembra de contar os médios. Olhem para o que escrevi; até agora, só citei os altos dos baixos; e um pouquinho dos altos dos altos. Sequer parei para escrever sobre os níveis médios; que são aqueles que vivemos 90% do nosso tempo. Sim, porque quase ninguém vive somente os baixos ou somente os altos. Até o mais franciscano dos humildes tem seus momentos de altos; e o maior milionário dos ricos, também vive momentos de baixas frequências, seja com uma dor de dente, seja com a perda de um ente querido.

Gente como eu, e como a maioria, só aprende a escrever sobre as coisas muito boas, como por exemplo: - Puxa vida! Ganhei na loteria! Ou ainda: - Caracas! Ontem sai com uma mulher magnífica! Ninguém está doutrinado para escrever ou falar somente de coisas ruins; e quando adotam este padrão, em geral, querem atenção ou favores; ou ainda, querem se esquivar de ajudar outras pessoas!

Eu sou mais simples e comum do que a maioria imagina. Já pequei por excesso; já usei da iniquidade para andar; já tomei vários porres por amor; casei, tive filhos, plantei árvores, escrevi vários livros; e hoje, como poucos, morri ontem. Isso tudo me faz um sujeito comum; igual a tantos poucos; e muitos raros, que conseguem enxergar na sua morte, uma oportunidade para escrever e viver um pouco melhor; e por mais contraditório e paradoxal, é assim que funcionam as coisas da vida. O grande problema é que ninguém quer enxergar aquilo que está escondido numa gaveta do âmago; empoeirado e guardado para que ninguém possa traduzir; a nossa própria vida!

Todo homem precisa conhecer a verdade. Precisa conhecer alguns de seus limites, para que possa cavalgar pelos cumes da inteireza; e pelos vales da serenidade. Nossa consciência nos exige, cada vez mais, conhecimento; e muito embora esta exigência não se faça tão clara, na cabeça da maioria, é assim que tem que ser. Uns precisam interpretar, para que outros os cobrem sobre este glossário de enigmas.

Uma vez São Francisco de Assis revelou a um pobre incrédulo, em sonho, que ele deveria ir ao encontro de civilizações antigas misteriosas. O incrédulo esqueceu o sonho e foi dar rumo a sua vida; mas noutro belo dia, resolveu ir conhecer o Peru; e no alto dos Andes, quando tudo parecia-lhe lindo, veio uma nevasca e o fez ficar sem ar nos pulmões. Imediatamente ele lembrou-se de São Francisco de Assis; e mesmo incrédulo, confiou que aquele era o lugar onde já deveria ter ido há muito tempo; e sem sentir medo, atravessou as montanhas geladas, cumprindo seu destino. Voltou para casa silente e atento, pois a natureza é Deus e Deus se faz presente na natureza. Respeite-a, pois esta é a primeira lição que todo homem deveria ter aprendido...

O que pode levar o homem a morrer? Pergunta subjetiva, porque tudo nesta vida pode dar prazer e matar também! Drogas, fumo, álcool, pessoas, amores, dinheiro, aleives; tudo correlacionado a estes fatores dão prazer e morte; até o conhecimento, que gera curiosidade, pode te dar altar e túmulo; e comigo não foi diferente!

Diz a mitologia que Themis era a deusa grega arqueira das promissões dos homens e da lei, sendo que era costumeiro invocá-la nos exames perante as autoridades. Por isso, foi por vezes, tida como deusa da justiça, título atribuído na realidade a Dice, uma deusa romana. Dice é que é a mulher bela que empunha a balança, com que equilibra a razão com o julgamento. A espada é uma invenção que deu vida a outra invenção.

A vida é um alvitre humano; e dentro de uma vida concebida, milhares de outras vidas podem se formar. O caráter pode ser formado de modo maléfico; e também pode se regenerar; mas tudo que vive eternamente maléfico, infelizmente, morre danoso e sempre vai ser lembrado como tal. No início de cada vida, se faz preciso ensinar as doutrinas da balança e também da espada; e o único cuidado que se deve ter é com quem ensina, pois a balança pode pender antes mesmo do equilíbrio; e a espada pode ferir, antes mesmo de ser lidada com zelo e cautela!

A história de minha vida e morte é muito longa. E não pense você, leitor; que isso é uma carta psicografada; ou mesmo, ainda, uma carta de despedida. Esta epístola é atual e refere-se a minha morte, ocorrida ontem; e somente parei para escrever esta carta, porque amanhã terei novidades; e desejo conta-las todas, para que você fique sabendo e me ajude a viver neste período pós vida!

A visão que cada pessoa tem da vida, no meu ponto de vista, é como nos cultos à Themis. Uns celebravam-na em "mistérios" ou "orgias", o que a fez, por muito tempo, uma simples personificação da ideia abstrata de legalidade; enquanto deveria ser em nome da Terra, do enraizamento da humanidade em uma inabalável ordem natural.

Devemos escolher como viver; se entre enigmas ou entre crápulas; e depois disso é que se pode enxergar em qual caminho se está inserido, se na luz ou nas trevas. A cautela de viver é assim; ou você a desembaralha ou ela te engole!

 

Carlos Henrique Mascarenhas Pires



Comentários 0



Nossos Parceiros

© Copyright 2011 - Crônicas do Imperador. Todos os direitos reservados. Desenvolvimento de sites