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O DILEMA CURDO

Terça feira, 28 de Junho de 2005
O DILEMA CURDO

Quase ninguém sabe, mas o Iraque desde a invasão do Kuwait, onde foi derrotado por Bush pai, ficou dividido em três pedaços interessantes. O norte ficou criado uma zona protegida pela ONU para que os curdos não sofressem ataques de Saddam. O meio era destinado ao regime ditatorial e o sul, este muito bem protegido pelos Estados Unidos, para que não houvesse mais tentativas de invadir o Kuwait. O mapa do Iraque ficou parecendo um sanduíche americano, pão, carne de segunda e pão.

Estas zonas eram vigiadas diuturnamente pelos satélites americanos que espiavam a movimentação de tropas ou movimentação comercial, proibida pelas Nações Unidas com o embargo. Restavam ao Iraque às fronteiras com o Irã, inimigo mortal, Jordânia e Síria. Saddam teria ainda uma pequena faixa portuária divida entre o Kuwait e o Irã, onde está a destruída cidade de Basra, primeiro alvo americano e muito vigiada pelos aliados de Bush.

No norte iraquiano, vivia escondido nas montanhas frias um povo tão antigo quanto os outros que compõem o mundo árabe, os Curdos. Por sua própria história, este povo sempre foi incentivado a lutar pelos seus objetivos, afinal, Saladino, o mais célebre curdo, invadiu e conquistou Jerusalém. Os curdos do norte iraquiano possuem hoje preocupações de sobra com esta guerra, que por um lado seria vista como uma salvação para seu problema mor, Saddam e por outro, mais uma séria complicação, que é a criação de uma nova guerra, desta vez com a Turquia.

Os curdos representam hoje 18% da população turca e são inimigos. O regime central turco, embora declare inimizade aos curdos, não querem que eles saiam do país, pois temem a formação de um estado novo, o Curdiquistão. A soma de curdos espalhados na região soma mais de 30 milhões. Só no Iraque, são cinco milhões deles.

Esta história sombria criada pela Turquia que seu inimigo é melhor em casa do que junto aos outros é no mínimo intrigante. Os miseráveis curdos apanham de todos os lados. De Saddam receberam uma carga monstruosa de gás mostarda que dizimou cerca de 200 mil deles; da Turquia, recebem um tratamento desumano onde são citados cenas de saques, seqüestros e estupros; do Irã, não recebem tratamento diferenciado, pois são considerados iraquianos. Resta-nos o refúgio para a Armênia ou Azerbaijão, mas o problema para quem opta rumar até estas nações, é passar pela Turquia ou pelo Irã. As fronteiras dos dois países são fortemente vigiadas e qualquer invasor tem como visto, uma rajada de fuzis.

A Turquia não permitiu que os Estados Unidos usassem seu território para abrir uma frente de ataque pelo norte do Iraque justamente por temer perder o controle na região entre os dois países. O medo maior é que num Iraque pós Saddam Hussein, os curdos proclamem um Estado independente, insuflando seus irmãos em território turco a aderir. A inexistência da frente norte é considerada o ponto mais frágil da estratégia americana. Se a situação já está ruim, poderia piorar muito mais se a Turquia, invocando razões de segurança nacional, descesse a tropa e os curdos reagissem à bala, como prometem fazer. Uma segunda guerra, mesmo que localizada, criaria enormes complicações para os Estados Unidos.

Os curdos vivem hoje como uma etnia minoritária entre a maioria árabe do Oriente Médio, mas suas raízes na região são muito remotas. São descendentes diretos das tribos indo-européias que chegaram a antiga Mesopotâmia na pré-história da civilização. Converteu-se ao Islã, na fase de expansão maometana, mas mantiveram a identidade própria. O grande sonho não só de Saddam como de todos os outros líderes árabes é emular Saladino, o que deixa os curdos numa situação ainda mais grave perante a comunidade islâmica. Eles constituem hoje o maior povo sem pátria do planeta.

Tiveram que fazer alianças com os Estados Unidos para combater o poder central iraquiano e destas alianças, os curdos também aceitaram as imposições americanas de comandar o Iraque por um período indeterminado. Pelo menos por enquanto este casamento está a mil maravilhas, mas não sabemos se esta lua-de-mel vai durar muito. Segundo os falcões americanos, após o cessar fogo, seria constituído um Estado sob o regime de República Federativa, o que garantiria sua autonomia.

Neste capítulo importante da novela de guerra, um dos papéis principais ficou com a Turquia. Ela negou sua rota terrestre para os americanos e ainda recebeu U$ um bilhão, somente pelo uso do espaço aéreo e ainda está diretamente envolvida nas questões concernentes ao povo curdo. A Turquia é acusada de atrocidades iguais ou piores, desferidas contra o povo curdo. Já colocaram tanques contra civis e ainda são acusados de torturas violentas e estupros. A Turquia foi inclusive, menos tolerante com a cultura e língua turca do que os iraquianos aliados de Saddam.

Quem é Abdula Ocalam? Um personagem muito conhecido do mundo árabe e nada conhecido entre nós, mas esta figura que se encontra preso numa ilha presídio feita exclusivamente para abrigá-lo. Líder separatista, Abdula é considerado herói para os curdos e sofreu na pele uma caçada internacional para detê-lo e calá-lo. Sua sentença foi proferida pela Turquia, comutada pela pressão da União Européia.

A Turquia já deixou claro que se acha no direito de intervir no norte do Iraque, caso haja um fluxo desordenado de fugitivos para seu território ou para impedir represálias aos turcomanos (uma minoria dentro da minoria), e acima de tudo, para cortar pela raiz qualquer aspiração de liberdade territorial.

Aí estão todos os personagens desta história que poderá virar mais uma novela de guerra. Estes personagens, inclusive os curdos e os turcos, se não sentarem para discutirem seus papéis no futuro da região, veremos num futuro próximo, capítulos iguais aos da novela Palestina – Israel, e o mundo estarão mais uma vez diante de um conflito que parece nunca ter fim.

Queria encerrar esta análise, como sempre faço, com versos, e desta vez, merecidamente, escolhi Vinicius de Moraes com Rosa de Hiroshima:

“Pense nas crianças, mudas telepáticas,

Pense nas meninas cegas inexatas,

Pense nas mulheres, rotas alteradas,

Pense nas férias como rosas cálidas.

Mas não se esqueça da rosa, da rosa.

Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária.

A rosa radioativa, estúpida e inválida.

A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica.

Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada!”

 

Carlos Henrique Mascarenhas Pires



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