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ESTRESSE PÓS TRAUMÁTICO

Quinta feira, 01 de Setembro de 2011
ESTRESSE PÓS TRAUMÁTICO

Nada melhor do que tentar explicar algo a alguém, cujo domínio do tema pode ser facilmente discernido; algo que você conheça na teoria e na prática. Somente desta forma é que conseguimos convencer outrem, principalmente se for qualquer coisa relevante, como os efeitos do estresse.

Meus amigos sabem bem, que se têm pessoas com pavio curto, em certas ocasiões eu não tenho pavio; convivo com o estresse avassalador há anos e muitas vezes eu sou penalizado por mim mesmo; isso é muito pior do que uma bronca dominante que parte de outras pessoas, porque mexe diretamente com meu ego e subconsciente!

Viajar de avião nunca foi traumático para mim; inúmeras vezes eu cruzei o céu do mundo a bordo de todo tipo de aviões, do menor monomotor até os gigantes Jumbos. Não sei mais precisar quantas horas de vôo eu tenho no meu currículo de viagens; já passei por inúmeros tipos de problemas em terra e no ar, sempre tendo ao lado uma aeronave; mas nenhum destes episódios jamais me fez ter medo de voar, até que certa noite eu me deparei com alguns dos elementos mais impetuosos do ato de viajar de avião; uma combinação química tão forte que me deixou seqüelas até hoje!

Eu fiz pelo menos 30 vôos entre Belo Horizonte e Uberlândia a bordo de um ATR-42 da Trip Linhas Aéreas e quando me vi diante de um vôo cancelado, fui obrigado a trocá-lo por outro operado num ATR-72; uma aeronave “turbo hélice” maior que voa baixo e que no trajeto se enfiou numa tempestade. No meio da tormenta de nuvens negras, raios, chuva e ventos fortes o avião subia e descia ao sabor da correção automática de seu piloto.

Havia pessoas rezando, outras apavoradas, algumas pareciam tranqüilas, mas todos estavam com medo. Ao meu lado uma senhora que fazia seu primeiro vôo que entrou em pânico e acabou me levando junto. Confesso que pensei que morreria naquela noite, pois o avião não estava conseguindo manter uma linha de equilíbrio da rota. Era a hora do serviço de bordo e o carrinho com petiscos e bebidas bateu numa poltrona e derrubou tudo; uma comissária se machucou e em segundos estávamos todos enlaçados nos cintos. Para encurtar a história, a porta da cabina de comando se abriu e deu para ver um dos pilotos lendo uma espécie de manual de instruções; era o nosso fim e nada tirava esta pressuposição de minha cabeça!

5 minutos de turbulência pareceram 5 anos no inferno; eu nunca estive no inferno poético, mas vivi aqueles 5 minutos de pânico. Quando desci no aeroporto da Pampulha são e salvo fisicamente, prometi que jamais entraria novamente numa aeronave ATR com qualquer sinal de chuva forte; detectei automaticamente que se não sofri fisicamente, aquele vôo me deixou um resultado psicológico tão forte, que até hoje eu não entro tranqüilo em qualquer outra aeronave e já faz três anos...
Mas se eu nunca estive numa aeronave que caiu; jamais me envolvi num acidente aéreo; nunca estive a bordo quando um avião arremeteu no pouso ou abortou uma decolagem, porque nutro tanto receio de voar e sei que preciso fazê-lo por questões profissionais? – Isso é claramente o sinal do transtorno do estresse pós-traumático; que também pode ser entendido como uma excitação psíquica decorrente e pautada a um evento fortemente ameaçador ao próprio paciente ou sendo este apenas testemunha da tragédia.

A perturbação consiste num tipo de recordação que é mais bem definido como o ato de “reviver”, pois é muito mais forte que uma simples recordação. Durante este ato de reviver, além de rememorar as idéias, o paciente sente como se estivesse vivendo novamente o próprio drama com o mesmo requinte de sofrimento que ela acarretou originalmente. A desordem então é a recorrência do sofrimento original de um trauma, que além do próprio sofrimento desencadeia também alterações neurofisiológicas e mentais.

Muitos de nós, inclusive eu, sabe que diagnosticar esta espécie de perturbação psíquica é como já imaginar um princípio de loucura, porque no fundo sabemos que este sofrimento prévio é fruto de uma imaginação fértil que nos persegue. Meu amigo e advogado, Gilmar Xavier, ainda hoje me disse que pretende visitar as Higlanders da Grã-Bretanha, um dos lugares mais lindos do mundo e o sonho de consumo turístico dos mais refinados; mas acabou me dizendo também que somente fica imaginando ter que voar por mais de 10 horas e o pior de tudo, quando o avião tiver cruzando o Atlântico.

Ora bolas, se o avião tiver algum problema, ele estando sobre o mar é mais temeroso do que sobre uma cadeia de montanhas? É óbvio que pressupostamente o mar seria um lugar até mais adequado do que a maior parte das terras em rota de uma viagem aérea, mas o que se pensa quando estão sobre o oceano é que não há nada, ninguém ou previsão de socorro em caso de pane! O incrível é ter que nutrir esta sensação terrível sem nunca ter passado por qualquer problema aéreo, caso específico de meu amigo Gilmar!

Se de fato há indícios de alguém já ter sofrido qualquer circunstância pavorosa de um evento traumatizante, como um estupro, pode sim o indivíduo nutrir o transtorno do estresse pós-traumático, mas há que se observar, no ponto de vista da saúde mental, que muitos eventos não deveriam gerar este tipo de transtorno. Posso claramente citar um acidente de carro sem vítima, mas também preciso apontar que o que é simples para mim, que já me envolvi em acidentes de trânsito e nem por isso nutri pânico para dirigir, pode parecer penoso para muitas pessoas.

Tudo o que é rotineiro e não casual não poderia em tese gerar este tipo de estresse; os eventos precisam ameaçar de alguma forma a vida ou a integridade de alguém para que ele se imagine vivendo o pós-traumático na forma de estresse. Para ser diagnosticado o paciente precisa pelo menos ter vivido, quiçá presenciado como testemunha. Em geral, dependendo do tipo de trauma, esta pessoa pode, inclusive, se afastar completamente do convívio social; amigos e até as famílias podem ficar em segundo plano se ele imaginar que estando em comunidade pode haver memórias ou possibilidades de reviver o trauma.

Muitas vezes os sintomas são observados na pessoa que tem lucubração, suscetibilidade, dificuldade de idéias, réplicas excessivas e incitações habituais ou vulgares. Médicos afirmam que para diagnosticar alguém como sendo portador do estresse pós-traumático é preciso observá-lo por pelo menos um mês e evidenciando que estes sintomas estão presentes, passa-se a fase de investigação mais profunda, para somente ministrar um tratamento mais eficaz. Pacientes como estresse pós-traumático podem também desenvolver dores forte de cabeça, problemas gástricos e imunológicos, tonteiras, dores no peito e muitos desconfortos repetidos em várias ocasiões durante o dia.

O transtorno de estresse pós-traumático é possivelmente um contratempo muito comum, porém pouco conhecido, como em tempos passados foram desconhecidos, porém freqüentes os transtornos de pânico, fobia social, obsessivo compulsivo. O estresse pós-traumático se diferencia dos demais transtornos de ansiedade e da maioria dos transtornos mentais por ser causado a partir de um fator externo. O cérebro humano é capaz de lidar com situações estressantes sem que isso deixe estigmas.

Há, contudo limites a partir dos quais o funcionamento mental fica perturbado. Provavelmente isso ocorre quando os mecanismos de enfrentamento e suporte contra estresse são fracos ou quando os estímulos são fortes demais. Durante o meu último vôo longo, entre o Brasil e a África, cheguei a usar remédio para dormir, mas a excitação era tão forte e presente que se muito cochilei em alguns pontos raros da viagem de 11 horas.

Quando surgirá o transtorno ninguém consegue saber, o fato de uma pessoa ter passado por um trauma não significa necessariamente que ela terá estresse pós-traumático. Observa-se que num mesmo evento, algumas pessoas podem apresentar esse transtorno e outras não. Essas variações nos levam a julgar que existem também predisposições pessoais a este problema, o que de fato tem sido constatado. Pessoas diagnosticadas com outros problemas de ansiedade prévios apresentam maior susceptibilidade a desenvolverem o estresse pós-traumático.

Da criança ao velhinho, qualquer pessoa pode desenvolver o estresse pós-traumático; os médicos também afirmam que os sintomas podem surgir de imediato ou podem levar anos para surgir. Uma vez detectado ele pode (ou não) seguir o paciente por meses, às vezes anos. Nos Estados Unidos da América há um tratamento a base de drogas e as publicações chegam a revelar acentuada melhora em quem recebe estes remédios; a regressão mental feita em consultórios de renome e por profissionais sérios também desvenda os motivos e baseia-se na busca de uma solução meramente psíquica, mas há também quem não concorde, seja por ignorância, seja ceticismo.

Eu sigo viajando de avião e para evitar maiores desconfortos, normalmente prefiro os vôos diurnos e faço uma pesquisa prévia para saber se não passaremos por tempestades; ainda assim, já desisti de voar algumas vezes, mas na maioria dos casos, por pura superstição.

Se você se enxerga em parte ou no todo deste texto, procure imediatamente um psiquiatra e o revele sobre seus medos. Este tipo de profissional é o mais indicado para orientá-lo acerca de uma solução deste e de outros tantos pânicos que nutrimos e que tanto nos causa desconfortos. Peça ajuda já!


Carlos Henrique Mascarenhas Pires



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