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ENTRE O TIGRE E O EUFRATES

Segunda feira, 16 de Maio de 2011
ENTRE O TIGRE E O EUFRATES

Todo cristão, judeu, mulçumano ou agnóstico, pelo menos uma vez na vida, deveria visitar as bandas do Oriente Médio; haverá ao menos um lugarzinho sensacional para cada pessoa do mundo gostar e poder pisar aonde tudo começou; onde afirmam os estudiosos que é o berço da humanidade como a conhecemos. Israel e a magia intrínseca de Jerusalém; as cidades sagradas da Palestina; os encantos do Líbano e cada curiosidade histórica e religiosa que compõe cada palmo daquele chão tão distante de nós brasileiros.

O lugar mais incrível do planeta que eu não pude conhecer, mas que prometi para mim mesmo que um dia visitarei é o Iraque; pelas razões mais pessoais que me possa surgir, a Babilônia é muito mais sagrada nos termos históricos do que qualquer outra cidade do planeta. Era uma cidade importante para todos os que viveram antes de Cristo e ficava na Suméria no Sul da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque.

Não há uma data precisa que determine uma idade para o Império Babilônio, mas a arqueologia através de suas teses, precisam que sua fundação tenha ocorrido por volta do ano 1950 Antes de Cristo, o que se conclui que tal domínio tenha ocorrido há uns 4 mil anos. O que mais me impressiona no mundo babilônio, dentre tantas coisas, são as inúmeras contribuições que eles nos deram com sua arquitetura, técnicas agrícolas e o direito empregado na época que eles promoviam a justiça; que por sinal, fundamentou todos os pilares do Direito Romano que hoje é usual no nosso sistema de direito moderno.

A escrita se desenvolveu de tamanha forma e as leis eram escritas em tábuas que serviam de códigos de justiça. Até na astronomia eles se destacaram e se mantiveram a frente de muitos outros povos. Se hoje vemos um dia com 24 horas e uma hora com 60 minutos, foram os babilônios os que estudaram para chegarem a esta prática!

Não que eu concorde com a regra social usada pelos babilônios ou iraquianos antigos, mas eles sempre foram arrojados em tudo e deixaram sua marca na história de modo definitivo. Uma das curiosidades que sempre estudei foi o Código de Hamurabi, aquele que dizia “olho por olho e dente por dente”. Alguns exemplos intrigantes do Código Hamurabi diziam que se um médico fizesse uma incisão e matasse o paciente, ele teria que ter as mãos cortadas; mas se este paciente fosse um escravo, ele teria que pagá-lo ao seu dono! O artigo 229 é para mim um dos mais sediciosos: se um construtor fizesse uma casa para alguém e esta fosse de má qualidade e caísse matando alguém da família, o construtor seria condenado à morte; se o morto fosse o filho do dono da casa, a justiça babilônica mandava matar o filho do construtor!

A terra onde tudo isso aconteceu, além dos mitos do Jardim do Éden, da Arca de Noé, da Torre de Babel, de ser a Terra de Abraão, do domínio Assírio, do episódio de Daniel na cova dos leões, da nacionalidade dos 3 Reis Magos e tantas outras histórias que povoam nossas cabeças desde que nascemos!

A palavra “Iraque” se traduzida do árabe significa “Terra com raízes profundas”, com uma importância tão grande quanto Israel, pois foi lá que muitas das grandes passagens bíblicas antigas se passaram; muitas profecias ocorreram e muitos dos mitos modernos foram criados. Mesmo que utilizando o nome de Mesopotâmia ou Babilônia, hoje é Iraque e também é de lá que se acredita ter havido propositalmente a idéia de muitas guerras modernas.

Esta terra singular incrustada hoje no centro de um barril de pólvora que ameaça todo o mundo; está ligada diretamente por fronteiras terrestres a Turquia, Irã, Kuwait, Arábia Saudita, Síria e Jordânia; e uma faixa de terra de pouco mais de 20 km também coloca o Iraque como detentor de um espaço do Golfo Pérsico.

Quase 30 milhões de iraquianos disputam, dentre outras coisas, o controle étnico, religioso e político do país. Estes pobres e miseráveis seres humanos, assim como tantos outros, se acostumaram a serem dominados; se libertaram do Império Otomano no início do Século XX e logo em seguida foram dominados pelos britânicos; somente em 1932 conseguiram levantar a bandeira cuja alcunha era de liberdade; cinco anos depois nascia Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti o homem que dominou todo o Iraque entre 1979 até 2003, quando caiu do Poder após a invasão estadunidense! Há quem afirme fielmente que Saddam mandou no Iraque desde 1969, quando foi nomeado Vice-Presidente do frágil e debilitado General Bakr.

Quem já visitou o Iraque e conheceu a forma peculiar de vida de seu povo, diz que por lá a amizade é algo impagável e que a palavra hospitalidade já nasce na boca e coração de cada iraquiano; mas este povo sofre horrores há milênios e raramente sequer foram compreendidos. Antes do petróleo os conflitos eram pelo crescimento territorial e pela importância de seu território; hoje os conflitos ocorrem por causa do dinheiro que se extrai facilmente daquele chão; a ganância associada à religião faz do Iraque um dos piores lugares do mundo para se viver na atualidade!

Da mesma forma que o Egito a maior parte do país é um só deserto, mas onde passam os rios Tigre e Eufrates o que se enxerga é “o ouro da Babilônia” em fertilidade; Bagdá é um destes exemplos, ela fica as margens do Tigre e é a segunda maior reserva de petróleo do planeta.

A única religião que se observa naquela região é a do Islã; até na bandeira há uma inscrição em árabe que diz “Allah-u-Akbar”, ou Deus é Grande! Eles também adotaram a Águia Dourada de Saladino em seu brasão de armas; esta mesma águia está segurando um pergaminho que contém as inscrições “al-Jumhuriya al-Iraqiya”, que em português diz: República Iraquiana! Uma curiosidade iraquiana é que Saddam Hussein e Saladino, lendário guerreiro do Islã, nasceram na mesma cidade, Tikriti.

É possível hoje se chegar a Bagdá por diversas formas, inclusive por avião; mas o mais emocionante é chegar a Beirute no Líbano e partir de carro até o Iraque babilônico com milhares de cenários milenares pelo caminho. Atravessando o deserto sírio por estradas tortuosas e frágeis que margeiam o Eufrates até se chegar a Bagdá. Por este caminho sugerido pela National Geographic são cerca de 1.200 km que se nada ocorrer se faz em dois dias. Para quem chega a Tel-Aviv e Jerusalém, seguindo a linha do Mediterrâneo, contorna-se a Cisjordânia ocupada cruzando o deserto da Jordânia e o Mar Morto, passando por Amam e Petra até Bagdá; também são cerca de 1.200 km de estradas péssimas e muita história pelo caminho. No segundo trajeto o aventureiro cruza os rios bíblicos e no meu ponto de vista é o curso mais histórico e mais severo do ponto de vista dos perigos.

Em qualquer um dos trajetos o aventureiro passa por locais sagrados da bíblia; rios, cidades milenares, povoados importantes para a história, ruínas antigas e solos únicos; locais onde estamos acostumados a vê-los em filmes clássicos ou de grandes aventuras; o único problema seja por um ou por outro caminho, é que no Iraque, terra sagrada para tantos, as tribos revoltosas distantes da Capital, costumam seqüestrar e matar pessoas ocidentais, principalmente as quem possuam nacionalidade cuja amizade é atribuída aos Estados Unidos.

Abençoada a terra iraquiana o é desde que o mundo é mundo, porque existir entre mares importantes, como Mediterrâneo, Negro, Cáspio, Vermelho e Pérsico; ter a imponência do Tigre e Eufrates e fazer tanta história ao longo de séculos e ainda resistir ao tempo voraz, não é para qualquer nação. Quando afirmam que o berço da humanidade é a Babilônia; que tudo que somos tem algo relacionado naquele antigo império não é mera religiosidade ou poesia.

Pena que grande parte desta história esteja completamente perdida; seja por ação do próprio tempo, seja pela mão do homem que insiste em manter-se ignorante. Lamentável que aquele povo ainda seja mantido como manobra política, seja para seus próprios conterrâneos, seja para tiranos forasteiros que anseiam por sua riqueza; riqueza esta que nem eles próprios mensuram quanto custa; apenas sabem que custam suas próprias vidas miseráveis que nada valem diante do Poder, onde um nasce para mandar e milhares para servi-lo!

O Iraque está despedaçado pelas constantes guerras, pelos constantes ataques de inimigos que muitas vezes nasceram e vivem lá mesmo; outras vezes por gente da mais alta ganância que quer apenas o ouro negro de seu solo. Um Iraque que não vive apenas entre o Tigre e o Eufrates e sim entre um tigre e um leão; e seu povo sem nada por fazer apenas resiste, reza e sonha, porque em horas como agora, onde crianças passam fome e morrem nos campos minados, onde as ruas estão tomadas de estrangeiros há sete anos; mais parece que até Alá os abandonou!


Carlos Henrique Mascarenhas Pires



Comentários 4

melissa

Terça feira, 17 de Abril de 2012, às 21:28
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