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CHICO ANYSIO NÃO PODE MORRER

Sexta feira, 23 de Março de 2012
CHICO ANYSIO NÃO PODE MORRER

Como se pode matar alguém que deu a vida a mais de 200 personagens? Como se pode esquecer, simplesmente enterrando-o, aquele que saiu do Ceará com a expectativa de ser alguém na vida, e o foi, mas ganhando primeiro o respeito e a admiração de um país?

Costumo dizer que as homenagens são significativas quando o homenageado ainda está vivo, porque depois que a morte os leva, dificilmente qualquer homenagem será justa. Singelamente e oportunamente o meu blog já fez algumas homenagens a esta figura ímpar da cultura brasileira; Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, ou simplesmente Chico Anysio, em corpo se despediu da vida hoje, 23 de março de 2012, mas permanecerá vivo em cada imagem gravada, cada sorriso por ele provocado e pela sua vasta contribuição para inúmeros setores brasileiros.

O menino que saiu do Nordeste aos 6 anos e foi para o Rio de Janeiro em busca de sonhos, coisa que encontrou logo cedo, mas diante de uma batalha de gigantes. Seu primeiro desafio foi vencer um punhado de jovens locutores de rádio; e já no elementar repto, somente não conseguiu vencer um cidadão chamado Senor Abravanel, ou Silvio Santos, como todos o conhece hoje.

Ele foi locutor de importantes rádios, foi comentarista e não achando pouco, passou a escrever roteiros de filmes na época de ouro do cinema no Brasil. No cinema Chico Anysio atuou em 7 películas entre 1959 e 2010; seu papel de maior destaque, sem sombra de dúvida, aconteceu em Tieta (1996), quando ele interpretou com maestria o personagem de Zé Esteves. Em 1957 passou a enxergar o grande filão do negócio do entretenimento; foi trabalhar na televisão para dois anos mais tarde já ter seu próprio programa.

Chico Anysio escrevia e interpretava a maioria de seus papeis na televisão; e quem pensa que ele parou por aí, está enganado. Histórias reais do Regime Militar do Brasil dão conta que foi ele um dos mais fortes interlocutores para que Caetano Veloso saísse do regime de prisão para ir ao exílio em Londres. O incansável Chico passava então a se meter, também, na política brasileira, defendendo alguns dos interesses que ele acreditava serem corretos.

Poucos sabem, mas este gigante do humor também compôs músicas e também investiu parte de seu escasso tempo nas artes plásticas. Amigos e familiares afirmam que Chico Anysio adorava pintar telas, boa parte delas de visão marinha.

Não se pode citar uma biografia de Chico sem falar em seus amores e os tantos filhos; Anysio foi casado 6 vezes e destes consórcios formais, o cearense teve 8 filhos, sendo que um é adotivo. Seu casamento mais comentado, talvez, foi com a ex-ministra de Collor, a polêmica Zélia Cardoso de Mello, com quem teve 2 filhos; mas em sua coleção de esposa aparecem outras celebridades, como a atriz Alcione Mazzeo, a vedete Rose Rondelli, a comediante Nancy Wanderley e a frenética Regina Chaves.

Até perto de sua despedida da vida Anysio atuou com grande vigor. Em Zorra Total ela fez até 2011 o papel da gaúcha Salomé e em 2010 fez participação em Malhação. A televisão era mesmo a vida de Chico Anysio; o cearense ilustre começou a fazer fama, não por sua aparência caricata, mas pela sua distinta educação social, que o fazia brilhar em quase todos os papeis. De 1973 até 1980 o “Chico City” alavancou a audiência da Rede Globo; o brilho foi tamanho que um de seus mais célebres personagens, o Azambuja, teve um programa só dele em 1975.

Depois vieram o “Chico Anysio Show” e em 1990 o ápice com “A escolinha do Professor Raimundo”; um sucesso tão enorme que passou a ser vastamente copiado por vários outros humoristas em outras emissoras de televisão. Quando a escolinha saiu do ar, notou-se um grande vazio na programação da Rede Globo; e por mais que muitos tentassem preencher a lacuna deixada por Anysio, esta tarefa até hoje tornou-se impossível.

Na biografia do humorista ainda se conta as novelas e outros tipos da televisão; foram 11 no total com vários destaques para o mestre do humor brasileiro. Sua primeira novela foi “Que rei sou eu?” de 1989; Chico viveu o papel de Taji Namas, uma alusão claríssima ao especulador Naji Nahas, famoso no Brasil da época por suas falcatruas junto ao Poder. Ele ainda voltaria a interpretar em Sinhá Moça, Pé na Jaca, Terra Nostra e Caminho das Índias, onde mais uma vez, interpretou um “picareta”, Namit Batra.

Saudades é pouco; Chico Anysio deixará um abismo entre a plateia, acostumada a rir escancaradamente, e a direção de peças teatrais, emissoras de televisão e diretores de programas humorísticos. Sua ausência dificilmente será esquecida, pois igual a ele, sem a menor chance de errar, podemos dizer que ainda não nasceu...

Chico Anysio jamais parou de surpreender; quando se imaginava que nenhum outro personagem seria criado por ele, chegou de paraquedas Valdevino Bento Carneiro; um vampiro nascido no Brasil com um sotaque caipira, que se apresentava para suas vítimas como "aquele que vem do aquém do além, adonde que véve os mortos"; e que mora em seu castelo junto de seu assistente corcunda Calunga. Nunca consegue assustar alguém: ao contrário, é um vampiro medroso e desnutrido.

Em outrora um de seus maiores sucessos, Paulo Maurício Azambuja, um malandro carioca, que foi jogador de futebol do Bonsucesso e participou de um conjunto musical na juventude. Vive aplicando golpes em parceria de Lingüiça. Azambuja é filho de Dona Lupicínia; o trio nos fazia rir até chorar...

E para lembrar só mais um de seus mais de 200 personagens, o faço com Pantaleão Pereira Peixoto; um aposentado que está sempre a contar histórias falsas. Vive em sua cadeira de balanço, na companhia de sua esposa Tertuliana e de Pedro Bó, um adulto com postura de criança adotado por ele. Sempre pergunta para sua mulher se ele está mentindo que, por sua vez, não tinha coragem de contradizê-lo e sempre garantia ser verdade. Possui um óculos com uma lente escura e outra incolor. Seu visual é inspirado em Dom Pedro II, enquanto a voz é similar a do cantor Luiz Gonzaga. Suas histórias sempre ocorrem no ano de 1927.

Falar dos personagens de Chico Anysio é o mesmo que ficar horas escrevendo sem parar; lembrando passagens do Brasil contadas com a picardia inigualável daquele que sabia bem o que estava fazendo. Lembrar de apenas alguns pode parecer injusto com tantos outros bons, como Tim Tones, Justo Veríssimo, Painho e Coalhada; mas é apenas uma forma singela de afirmar através de poucas letras que Chico Anysio nos fará uma falta enorme...

A esta hora São Pedro deve estar rolando de rir nas nuvens, após recepcionar o Mestre do Humor do Brasil; Chico Anysio; o menino que nasceu em Maranguape em 1931 e morreu menino em 2012; mas quem já fez tudo isso, dificilmente consegue morrer...


Carlos Henrique Mascarenhas Pires



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