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ASSAD É ANJO, DEMÔNIO OU AMBOS?

Sábado, 14 de Setembro de 2013
ASSAD É ANJO, DEMÔNIO OU AMBOS?

 Encravada entre o Mediterrâneo, o Líbano, Israel, Jordânia, Iraque e Turquia, numa faixa de terra abençoada pelas histórias mais incríveis do mundo, está a magnífica Síria, palco dos atuais conflitos mais sangrentos dos últimos anos. Um lugar, como tantos outros daquela região, que é dominado por líderes fanáticos que põem Deus na política; e que pelo Poder, são capazes de tirar a vida de seus próprios irmãos... 

O mundo não fala em outra coisa, senão no conflito interno travado por insurgentes contrários ao regime de Bashar Al Assad, que segundo informações de ativistas de direitos humanos dentro e fora da Síria, o número de mortos nos conflitos já ultrapassou a marca de 100 mil vidas, sendo mais da metade de civis. Estes mesmos organismos afirmam que outras 130 mil pessoas teriam sido detidas pelas forças de segurança do governo; e que ainda, mais de dois milhões de sírios já teriam buscado refúgio no exterior para escapar dos combates, com a maioria destes tomando abrigo no vizinho Líbano. 

Por que tudo isso? Num mundo tão tendente a informação, porque ainda se briga a ponto de exterminar pessoas inocentes, como crianças e idosos, apenas pelo simples fato de se ter Poder? Ou será que é a religião que influencia estas pessoas, que são tecnicamente da mesma religião islâmica, a mostrar que sua fé é maior do que a do outro grupo? 

O poderio econômico da Síria é de quase 100 bilhões de dólares/ano; e para quem pensa que a Síria é rica em petróleo, trate de se informar melhor. O país viveu nos últimos anos basicamente dos frutos do turismo; e muito embora haja extração de petróleo e beneficiamento de seus derivados, os sírios não são magnatas do ouro negro, mas estão pisando sobre solo sagrado para todas as religiões monoteístas e possui localização estratégica; portanto, esta sede de Poder que os sírios possuem, na verdade, se traduz em ganância e status. 

A Síria é um dos chãos mais importantes da civilização árabe e sua história remonta de uma época que pouco se tem ciência, mas que é mais antiga e curiosa, do que, por exemplo, a civilização egípcia. Ao longo de milhares de anos aquelas terras foram dominadas por diferentes etnias e civilizações até que o Império Otomano delineou seus traços marcantes até bem pouco tempo; passando seu domínio para os turcos, que ficaram lá até início do Século XX. 

A belíssima Damasco, capital síria e uma das cidades mais incríveis de que se tem notícia, existe há pelo menos 3 mil anos e concentra uma população de pouco menos de 2 milhões de habitantes. Em 2008 Damasco foi escolhida como a capital árabe da cultura, pois para onde os olhos conseguem enxergar há traços inequívocos da mais cristalina história; a história do início da civilização humana. Em Tell Ramad, nos arredores de Damasco, estudos com carbono 14 dão indícios de civilização há 7 mil anos antes de Cristo; e em Barada, também perto de Damasco, estas datas vão ainda mais além: 9 mil anos antes de Cristo. 

Por tudo isso e alguns outros mistérios é que aquele povo sofre tanto para se manter assente em meio a todas as tormentas que os afligem desde de que o mundo é mundo civilizado. A região de Damasco, assim como todo o resto da Síria, tornou-se um campo de batalha por volta de 1.260 a.C., entre os hititas desde o norte e os egípcios do sul, terminando com um tratado assinado entre Hattusili e Ramsés II onde foi entregue o controle da área Damasco para Ramsés II em 1.259 a.C. A chegada dos Povos do Mar, por volta de 1.200 a.C, marcou o fim da Idade do Bronze na região e trouxe novos desenvolvimentos da guerra. Damasco foi apenas a parte periférica dessa realidade que afetou mais a população de grandes centros da Síria antiga. 

Desde 1963, após um golpe de estado, a Síria é governada pelo Partido Baath. Apesar das mudanças de poder no golpe de estado de 1966 e no golpe de 1970, o Partido Baath continua mantendo-se como a única autoridade na Síria, através do uni partidarismo e absolutismo quase imperial, como ocorre em Cuba. 

No último golpe de estado, Hafez al-Assad, pai do atual presidente, tomou o poder, liderando o país por 30 anos e proibindo a criação de partidos de oposição e a participação de qualquer candidato de oposição em uma eleição. Em 1982, durante um clima de insurgência islâmica em todo o país, que durou seis anos, Hafez al-Assad aplicou a tática da "terra arrasada", sufocando a revolta islâmica da comunidade sunita, incluindo a Irmandade Muçulmana, entre outros. Durante essas operações, milhares de pessoas morreram no massacre de Hama. 

O presidente Bashar al-Assad se encontra no poder desde 17 de julho de 2000, sucedendo seu pai. Seu partido atualmente domina a política síria, incluindo o parlamento. Como vários outros países do oriente médio, a Síria sofria com retrações econômicas e altos índices de desemprego que chegava a 25% da população. A situação socioeconômica, como a deterioração do padrão de vida, a redução do apoio do governo aos pobres como consequência da adaptação da economia para um mercado aberto, a erosão dos subsídios para bens e agricultura, sem uma indústria estável e índices de desemprego altos entre jovens incitaram o descontentamento popular. 

A situação dos direitos humanos na Síria também era considerada deplorável, conquistando várias críticas de organizações estrangeiras. O país ficou sob estado de exceção de 1963 até 2011, o que dava as forças de segurança a autoridade de prender qualquer pessoa sem declarar um motivo. Movimentos pró-democracia liderados, na maioria das vezes, pela Irmandade Muçulmana, foram mal recepcionados pelo governo que reprimia qualquer manifestação de oposição. Todos os partidos políticos foram banidos da Síria, fazendo do partido do governo o único a concorrer nas eleições. 

Em uma entrevista feita em 31 de janeiro de 2011, al-Assad declarou que era tempo de fazer reformas, frente as revoltas de demanda popular que derrubaram governos no Egito, na Tunísia e no Iêmen, e que falou que uma "nova era" estava chegando ao Oriente Médio. Segundo grupos de oposição, a lentidão ou não cumprimento das promessas de reformas incitaram a população a se manifestar contra o governo em massa, mas Assad afirma que estes insurgentes são na verdade, terroristas ligados ao grupo Al Qaeda. 

Os primeiros protestos começaram em janeiro de 2011 e foram reprimidos duramente pelo governo. Ainda no mesmo mês, uma manifestação em Ar-Raqqah terminou com dois mortos. Protestos em Al-Hasakah acabaram sendo dispersos pelas forças de segurança leais ao governo e centenas foram presos. A rede de TV árabe Al Jazeera reportou a violência usada pelas forças de Assad na repressão e se disse preocupada com o risco de uma insurreição popular nos moldes da Líbia. O presidente Assad então afirmou que seu país estaria imune a todos os tipos de protestos em massa como os que ocorreram no Cairo. Ele estava enganado... 

O que se vê, ou se ouve falar, das notícias sírias desde 2011 é que mortos e mais mortos são enterrados todos os dias em covas rasas, porque em muitas cidades os cemitérios já não dão conta da demanda. O Governo acusa os rebeldes de crime contra o Estado; já os rebeldes, oposição a Assad, o denuncia por crime contra a humanidade, genocídio...! 

Tentar entende-los, para nós é simplesmente uma tarefa árdua, porque só ouvimos falar o que sai na imprensa internacional. Também dizer que a diplomacia é o único caminho, no meu ponto de vista é inerte e subjetivo, porque enquanto a diplomacia não surte efeito, milhares de pessoas permanecem morrendo. Também apontar os Estados Unidos da América como sendo os juízes do mundo, cá pra nós, é fantasioso! – Mas então, o que se deve fazer? 

Deixar que eles resolvam seus próprios problemas, sabemos que é uma via de mão dupla. Se os rebeldes aceitarem Assad, com certeza o ditador não irá aceita-los; e se Assad abrir mão de parte de seu Poder, é mais certeza ainda que seus parceiros de religião irão derrubá-lo, mais cedo ou mais tarde. 

Enquanto nada de conexo ocorre o mundo não dorme. A tensão na região da Síria agora é maior do que há três anos. O Iraque está em conflito; um pedaço da Turquia, também; a Jordânia é cercada de conflitos; Israel e Palestina dispensam apresentações. No Irã até monge tibetano morre de estresse; ali pertinho, no Egito, parece que o mundo vai acabar na Praça Tahrir. Paquistão, Afeganistão e Líbano vivem eternos conflitos; e ambos os lados, Governo e insurgentes da Síria, estão tirando proveito de tudo isso! 

A intervenção dos Estados Unidos e Inglaterra, todos sabemos que não é para proteger o povo sírio, mas sim, tirar Assad do Poder; o homem que uns acham que é anjo e muitos milhares afirmam ser o próprio Satanás... 

Nas minhas considerações, se Assad ficar, a Síria vira um inferno; se Assad cair, a Síria pode cair em mãos de outros demônios; e a história já provou isso em outras épocas e bem perto de lá; basta lembrar do que ocorreu no Egito recentemente. E com tudo isso, pelo amor a história da Síria, eu só espero que aquele pais não se torne o Iraque de hoje; que na época de Saddam era um inferno e depois dele, ficou um inferno pior...!

 Agora em outubro eu iria fazer mais uma expedição de carro. Sairia do Cairo e iria até a Turquia, passando pela Síria, Iraque e Irã, mas tive que adiar, porque a Embaixada da Síria no Brasil não me deu a menor garantia de que esta expedição pudesse ocorrer com segurança nos dias atuais. Minha sensação de frustração é menor do que o sentimento de pesar por todas estas pessoas que vivem nesta região. Minha viagem pode esperar um, dois, dez anos; mas a dignidade daquela gente não pode esperar nem mais um segundo. 

Na Surata 128 do Alcorão, diz: "A concórdia é o melhor, apesar de o ser humano, por natureza, ser propenso à ganância."; e o próprio profeta Maomé disse: "O mais forte é aquele que sabe dominar-se na hora da cólera."; mas pelo visto, o que eles querem mesmo é buscar o conhecimento no berço da sepultura, alheia, parafraseando o próprio Profeta Maomé! 

 

Carlos Henrique Mascarenhas Pires



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