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140 ANOS SEM O POETA MAIOR!

Sexta feira, 03 de Junho de 2011
140 ANOS SEM O POETA MAIOR!

Dulce, fantasmas, Ester, Fabíola, Cândida, Laura, Marieta, Bárbora e Navios Negreiros; dentre tantos versos e letras, assim viveu tão pouco e intensamente Antonio Frederico de Castro Alves, que nasceu em 1847 e morreu na mesma terra que o pariu, a Bahia, aos 24 anos de idade; neste ano, padecemos há 140 anos a ausência de tamanha alma destemida e de sua inspiração versada em baldrames de coragem...

O garoto que ficou órfão de mãe ainda muito jovem encontrou na cultura a sua forma de externar os pensamentos; e sem querer acabou criando um dos maiores marcos literários do Brasil Império, que não só sobrevive até hoje, como também permanece a inspirar as gerações futuras.

Dos recantos onde nascera, Recôncavo da Bahia, terra boa para o cultivo do fumo, que em outrora fora tão exigida pelos Governos, outros vultos também se destacaram e muitas histórias fundamentais para nossa formação atual também ocorreram, mas que infelizmente o Brasil insiste em somente conhecer Caetano Veloso e Maria Bethânia! Castro Alves é para aquele chão, com raríssimas exceções, apenas um apêndice vagamente lembrado, sobretudo porque hoje há uma cidade de mesmo nome.

Castro Alves tentou a vida na carreira jurídica em Recife, mas fora reprovado ainda na admissão; se não conseguiu enveredar pelo caminho da justiça, teve de seus colegas na faculdade pernambucana a glória do requisito contínuo para ser tribuno e o poeta das seções públicas do movimento estudantil. Nos teatros e outros palcos públicos ficou acostumado aos aplausos e as ovações, o que sempre se afirma em teses atualizadas da corroboração de sua incontestável inteligência.

Seu porte atlético e suas vestes sempre alinhadas, associado a sua beleza de época, sempre o fizeram se destacar dentre tantos talentos; segundo nos informa a história, Castro Alves tinha a admiração dos homens e o despertar fogoso das paixões femininas; por este pilar, começam os romances, alguns secretos, que o ajudaram a eternizar nomes e a reunir tantas letras, de tamanha importância, para perpetuar todos os seus versos.

Mas foi o seu espírito humanista e sua incontestável capacidade de sensibilizar multidões em torno das causas libertárias que o baiano garoto, Castro Alves, começou a ganha notoriedade e arrebatar multidões de fãs. O Brasil apanhava muito com a questão escravagista e o baiano que nasceu e cresceu observando os negros sendo tratados de pior forma do que os animais; iniciou a epopéia pessoal de defesa através de primorosas poesias.

Poeta de renome, jovem e projetando crescer na vida, sofre outro duro golpe depois da morte da mãe; seu irmão com problemas mentais suicida-se em sua terra natal. Castro Alves enfim ingressa na Faculdade de Direito; ele conhece e afina amizade com Fagundes Varella, outro ás da poesia e um boêmio de primeira; ambos se alistam nas frentes patriotas da Guerra do Paraguai e depois retornam juntos a Salvador. No ano seguinte perdeu o pai e fundou com Rui Barbosa, célebre e de biografia incontestável, uma espécie de ONG abolicionista, mesmo ano que se tornou amante da atriz portuguesa Eugênia Câmara, que já era concubina de outros amásios.

Castro Alves ainda teve fase de intensa produção literária e a do seu apostolado por duas grandes causas: a social e moral; a da abolição da escravatura; outra, a república, aspiração política dos liberais mais exaltados. Data de 1866 o término de seu drama Gonzaga ou a Revolução de Minas, representado na Bahia e depois em São Paulo, no qual conseguiu consagrar as duas grandes causas de sua vocação. No dia 29 de maio, resolveu partir para Salvador, acompanhado de Eugênia. Na estréia de Gonzaga, dia 7 de setembro, no Teatro São João, foi coroado e conduzido em triunfo.

Ainda muito jovem e reunindo uma experiência que poucos com o quádruplo de sua idade sequer sonhava em possuir, Castro Alves ainda se viu diante de gente como Machado de Assis, José de Alencar; três anos antes de sua morte a imprensa publica cartas trocadas entre o baiano e os amigos ilustres, causando verdadeiro furor literário para a época e elogios infindáveis para o jovem da Bahia.

Ele ainda continuou principalmente com a produção intensa dos seus poemas líricos e heróicos, publicados nos jornais ou recitados nas festas literárias, que produziam a maior e mais ruidosa impressão; tinha 21 anos, e uma nomeada incomparável na sua geração, que deu, entretanto os mais formosos talentos e capacidades literárias e políticas do Brasil; basta lembrar os nomes de Fagundes Varella, Ruy Barbosa, Joaquim Nabuco, Afonso Pena, Rodrigues Alves, Bias Fortes, Martim Cabral, Salvador de Mendonça, e tantos outros, que lhe assistiram aos triunfos e não lhe disputaram a primazia. É que ele, na linguagem divina que é a poesia, lhes dizia a magnificência de versos que até então ninguém dissera, numa voz que nunca se ouvira, como afirmou Constâncio Alves. Possuía uma voz dessas que fazem pensar no glorioso arauto de Agamenon, imortalizado por Homero, Taltibios, semelhante aos deuses pela voz…, como disse Rui Barbosa. Pregava o advento de uma "era nova", segundo Euclides da Cunha.

1868 foi o ano da apresentação pública de Tragédia no Mar, que depois ganharia o nome de Navio Negreiro; mesmo ano que durante uma caçada se feriu no pé e teve que amputá-lo sem nenhuma anestesia; depois descobre que também estava tuberculoso. Muda-se de cidade em cidade para criar um clima que amenize a sua saúde e atenuar as dores de sua mutilação. Lança ainda em meio as dores físicas e a característica sorumbática de sua tristeza duas obras, “a cachoeira de Paulo Afonso” e “espumas flutuantes”. Em 10 de fevereiro de 1871 foi visto em público pela última vez e em 6 de julho do mesmo ano morre na casa em Salvador.

Antonio Frederico de Castro Alves morreu jovem e deixou seu legado para todos, inclusive os que não nasceram no Brasil, pois sua obra corre o mundo e está tão atualizada que muitas vezes pensamos que fora escrita ontem, porque até hoje desejamos as amantes e muitos ainda cultivam a forma escrava de se ter alguém por subserviência. Ele é o homenageado pela Academia Brasileira de Letras na cadeira de número 7, hoje ocupada por Nelson Pereira dos Santos, mas que já recebeu nomes como Euclides da Cunha e Pontes de Miranda.

Quando castro Alves nasceu na Bahia o local de seu nascimento, Curralinho; pertencia a Muritiba e hoje a cidade que leva seu nome. Região como já citei, cheia de encantos, riquezas e histórias; mesma região em que nasci e pelo qual me orgulho muito de escrever sempre que tenho oportunidade. Uma região onde, infelizmente, os estudantes de hoje sequer sabem da menor das curiosidades sobre este e tantos outros vultos de nossa história. Eu próprio, primeiro conheci; ainda na escola, e me apaixonei, pela obra de Augusto dos Anjos; somente depois que eu estava no ginásio, durante uma viagem pela histórica Cachoeira e São Félix, fui conhecer o lirismo e a suntuosidade de Castro Alves.

Depois que passamos a conhecer a vida, a obra e a trajetória que sua história percorreu na sua época, seria como se hoje tivéssemos um garoto de menos de 20 anos que confabula sobre política, literatura e legislação, ao mesmo tempo, com gente da Academia Brasileira de Letras, do STF, Planalto e Congresso; tendo de todos, o mesmo respeito e admiração; este jovem existe? – Com certeza não! – Castro Alves foi praticamente isso tudo e um pouquinho mais!

Em Anjos da Meia Noite, um de seus poemas mais distintos, quando Castro Alves cita Marieta, diz:
Como o gênio da noite, que desata
O véu de rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata...

O seio virginal, que a mão recata,
Embalde o prende a mão... cresce, flutua...
Sonha a moça ao relento... Além na rua
Preludia um violão na serenata!...

...Furtivos passos morrem ao lajedo...
Resvala a escada do balcão discreta
Matam lábios os beijos em segredo...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta!...

Nada mais atual e brilhante, quando se trata do amor entre um homem e uma mulher; amor que vem desde os primórdios e sobrevive até hoje, seja por ação, seja pelos versos de Castro Alves, o poeta maior!


Carlos Henrique Mascarenhas Pires



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